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terça-feira, 23 de outubro de 2018

Darcy Ribeiro já explicou, amiguinhos...

"O
 espantoso
 é 
que 
os 
brasileiros,
 orgulhosos
 de 
sua 
tão 
proclamada, como 
falsa,
"democracia
 racial", raramente percebem os profundos abismos que aqui separam os estratos sociais.

O
 mais
 grave
 é
 que
 esse
 abismo
 não
 conduz
 a
 conflitos
 tendentes a 
transpô‐lo,
 porque
 se
 cristalizam
 num
 modus vivendi
 que
 aparta
 os
 ricos dos pobres, como se fossem castas e guetos. Os
 privilegiados
simplesmente 
se
 isolam
 numa
 barreira
 de
 indiferença
 para
 com
 a
 sina
 dos
 pobres,
 cuja 
miséria
 repugnante
 procuram
 ignorar
 ou
 ocultar
 numa
 espécie
 de 
miopia social,
 que
 perpetua 
a 
alternidade.
 O
 povo‐massa,
 sofrido 
e
 perplexo,
 vê 
a ordem social
 como
 um
 sistema
 sagrado
 que
 privilegia
 uma
 minoria 
contemplada
 por
 Deus,
 à
 qual
 tudo
 é
 consentido
 e
 concedido.
 Inclusive
 o 
dom
 de
 serem,
 às
 vezes,
 dadivosos,
 mas
 sempre
 frios
 e
 perversos
 e, invariavelmente,
 imprevisíveis. 
(...)

Nessas
 condições
 de
 distanciamento
 social,
 a
 amargura
 provocada
 pela exacerbação
 do
 preconceito
 classista
 e
 pela
 consciência
 emergente
 da
 injustiça bem
 pode
 eclodir,
 amanhã,
 em
 convulsões
 anárquicas
 que
 conflagrem
 toda
 a
 sociedade.
 Esse
 risco
 sempre
 presente
 é
 que
 explica a preocupação obsessiva que tiveram as
 classes 
dominantes 
pela
manutenção da
 ordem.
 Sintoma
 peremptório
 de
 que
 elas
 sabem
 muito
 bem
 que
 isso
 pode 
suceder, caso se abram as válvulas de contenção. Daí
 suas
"revoluções preventivas",
 conducentes
 a
 ditaduras
 vistas
 como
 um
 mal
 menor
 que qualquer 
remendo
 na 
ordem
vigente."

Trecho de O POVO BRASILEIRO – Darcy Ribeiro


quinta-feira, 6 de dezembro de 2012

Niemeyer

Bom, agora é oficial... Niemeyer virou lenda...

Sei que pode parecer humor negro o que irei escrever, mas enfim... é mesmo!

Há algumas semanas, Luiz e eu passeávamos serelepes pelo MON - Museu Oscar Niemeyer em Curitiba. Enquanto apreciávamos a vista e divagávamos sobre o estado de saúde do arquiteto, eis que escuto uma pérola que merece ser reproduzida.

Claro que não foi exatamente nessas palavras, mas dizia exatamente o seguinte:

Toda vez que o Niemeyer vai para o hospital e o pessoal pensa que ele vai bater as botas, eis que ele olha para a galera e solta:
"Ráááááááááááá... Pegadinha do Malaaaaaaaandro"

Naquela altura, sim, Niemeyer vivia às voltas com pegadinhas do malandro, enganando os ávidos herdeiros e voltando todo pimpão para casa... over and over again...

Porém, como um dia tudo acaba, no último dia 05 a porta dos desesperados se fechou para sempre...

E como diria o Chaves... Já se foi o disco voador...

  

quinta-feira, 28 de julho de 2011

O Socialismo funcionaria ???



Pensando sobre esse assunto, descobri uma experiência socialista realizada em 1931 por um professor da Universidade do Texas  Tech que disse nunca ter reprovado um só aluno antes, mas que havia, uma vez, reprovado uma classe inteira.

Essa classe em particular havia insistido que o socialismo realmente funcionava: ninguém seria pobre e ninguém seria rico, tudo seria igualitário e 'justo'.

O professor então disse: "Ok, vamos fazer um experimento socialista nesta classe. Ao invés de dinheiro, usaremos suas notas nas provas."

Todas as notas seriam concedidas com base na média da classe, e portanto seriam 'justas'. Isso quis dizer que todos receberiam as mesmas notas, o que significou que ninguém seria reprovado. 


Isso também quis dizer, claro, que ninguém receberia um "A"...

Depois que a média das primeiras provas foi tirada, todos receberam "B". Quem estudou com dedicação ficou  indignado, mas os alunos que não se esforçaram ficaram muito felizes com o resultado.  Quando a segunda prova foi aplicada, os preguiçosos estudaram ainda menos - eles esperavam tirar notas boas de qualquer forma. Aqueles que tinham estudado bastante no início resolveram que eles também se aproveitariam do trem da alegria das notas. 

Portanto, agindo contra suas tendências, eles copiaram os hábitos dos preguiçosos. Como um resultado, a segunda média das provas foi "D".

Ninguém gostou.


Depois da terceira prova, a média geral foi um "F".

As notas não voltaram a patamares mais altos, mas as desavenças entre os alunos, buscas por culpados e palavrões passaram a fazer parte da atmosfera das aulas daquela classe. A busca por 'justiça' dos alunos tinha sido a principal causa das reclamações, inimizades e senso de injustiça que passaram a fazer parte daquela turma. No final das contas, ninguém queria mais estudar para beneficiar o resto da sala. Portanto, todos os alunos repetiram o ano... para sua total surpresa.


O professor explicou que o experimento socialista tinha falhado porque ele foi baseado no menor esforço possível da parte de seus participantes. Preguiça e mágoas foi seu resultado. Sempre haveria fracasso na situação a partir da qual o experimento tinha começado."Quando a recompensa é grande", ele disse, "o esforço pelo sucesso é grande, pelo menos para alguns de nós. Mas quando o governo elimina todas as recompensas ao tirar coisas dos outros sem seu consentimento para dar a outros que não batalharam por elas, então o fracasso é inevitável."


"É impossível levar o pobre à prosperidade através de legislações que punem os ricos pela prosperidade. Cada pessoa que recebe sem trabalhar, outra pessoa deve trabalhar sem receber. O governo não pode dar para alguém aquilo que não tira de outro alguém."


Quando metade da população entende a ideia de que não precisa trabalhar, pois a outra metade da população irá sustentá-la, e quando esta outra metade entende que não vale mais a pena trabalhar para sustentar a primeira metade, então chegamos ao começo do fim de uma nação.


É impossível multiplicar riqueza dividindo-a."


Adrian Rogers, 1931

domingo, 19 de dezembro de 2010

E a Guerra Civil Espanhola, alguém sabe o que aconteceu?

A república espanhola surgiu a partir da queda da monarquia, que hoje é uma espécie de figura decorativa no país. Por causa da crise econômica que assolava o mundo no início do século XX, a situação por lá não era das mais confortáveis.

Na verdade, de confortável não tinha nada. Era o caos, greves, combates de rua e excessos anticlericais da Frente Popular de esquerda aconteciam a todo momento. O general Franco, militar antirepublicano, que nesta época estava no Marrocos, decidiu que era hora de agir. Assim, colocou sua farda fascista, inflamou suas tropas e, com ajuda da Alemanha e Itália, invadiu a Espanha ocupando metade do país.

Seu objetivo era chegar em Madrid, o que lá pela segunda metade da década de 30, sem os carros potentes de hoje em dia, devia ser bem complicado. Franquinho até que estava indo bem, porém, ele não contava com a astúcia de quem? De quem? De quem??? Do Chapolin Colorado??? Nãooooo... Dos soviééééticos, que cortaram o seu barato. 

Os populares amedrontados notaram que as forças republicanas da época eram uma verdadeira piada. Por isso, resolveram fazer algo contra o fascismo. Montaram comitês locais de defesa dos próprios operários e camponeses, que tinham como líderes anarquistas, socialistas ou comunistas, dependendo da região.


Devia mesmo ser no mínimo interessante ver toda essa movimentação. 

Mas acontece que os comitês começaram a exagerar na dose, assassinando violentamente tudo o que passava pela frente, sob a desculpa de serem todos seus opositores. Eles espalhavam medo e terror por onde quer que passassem, aterrorizando principalmente as igrejas (*).

Com essa bagunça toda, enquanto a barbárie se intensificava, o governo liberal da época foi substituído pela coalizão social-comunista. Até o poeta García Lorca foi vítima deste descontrole nacional. 

A primeira parte do século XX realmente foi uma época conturbada. Por isso, os imigrantes, intelectuais, democratas e literatos ocidentais, frustrados pela impotência da democracia diante de Hitler e Mussolini, vislumbraram aí uma oportunidade de combater o fascismo pessoalmente, ingressando nas brigadas internacionais apoiadas pelos republicanos.

A história sobre a Guerra Civil Espanhola relata a crueldade da epopéia antifascista, repleta de mortes, torturas, medo, diversidade, idealismo e amor pela Espanha.

Um dos livros mais famosos sobre o assunto foi o romance de Ernest Hemingway, Por quem os sinos dobram, que eu ainda não li, mas que está na minha lista há muito tempo.

Franco, no final, ganhou a guerra com a ajuda da Alemanha e da Itália. Os Alemães eram os mais entusiasmados, fornecendo uma première de horror e desolação, da qual eles mesmos foram vítimas um tempinho depois, no final da 2ª Guerra Mundial, em escala milhões de vezes maior.

Os Alemães, simpáticos como eles só, bombardearam a cidade basca de Guernica somente para que seus pilotos adquirissem um pouco de experiência prática... afinal, só na teoria ninguém aprende nada, não é mesmo???

Picasso, impressionado pelo ocorrido, documentou essa atrocidade no quadro Guernica


Meu pai ainda não era nascido nesta época, ele veio ao mundo bem no finalzinho da 2ª Grande Guerra e diz que a comida européia do período era muita batata, repolho e ovo... : (
   

domingo, 21 de novembro de 2010

A intrépida Ravenguinha - parte #2

No capítulo anterior: A intrépida Ravenguinha - parte #1


Pois bem, após a morte do Rei Diponga, Ravenguinha voltou para Tebas e encontrou seus irmãos, Eteócles e Polinice, se estapeando pelo trono. Nesse dia, ela ficou sabendo que depois da saída humilhante de Diponga da cidade, seu tio, o sisudo Creonte, assumiu o reino, tornando-se o senhor de Tebas. 

Mas Polinice, o filho emo de Jocasta, assolado por sua obesidade mórbida, não gostou nada do assunto e tramou, enquanto ouvia Restart, Fresno, Nx Zero e Cine, um golpe de Estado para arrancar de Creonte o comando da cidade.

Ele pensou em quase tudo, só se esquecendo que Etéocles, seu irmão encrenqueiro, era o secretário de segurança de Tebas, e que, muito satisfeito com seu posto, defenderia o trono de Creonte até às dentadas, se preciso fosse.

E foi no dia do confronto entre o emoglobina Polinice e o encrenqueiro Etéocles, que Antígona, a intrépida Ravenguinha descabelada, chegou na cidade. Ela viu socos, tapas, pontapés, mordidas, escarradas, arranhões, puxões de cabelo, barrigadas, cabeçadas, chave de braço, chave de pescoço, chave de nariz, sangue... muito sangue...

Até ela levou uns tapas quando tentou separar a briga... Era uma gritaria só, até que depois de tanta luta-livre, os dois morreram de cansaço e perda de sangue.

Creonte, em sua sede de vingança, impediu que sepultassem o corpo de Polinice, primeiro pela sua traição, segundo, porque teria que mandar fazer um caixão super-hiper-mega-blaster-grande, pois o corpo era enorme, e terceiro porque seriam necessários muitos homens para carregá-lo. 

Creonte achou que era muito trabalho para um traidor e que ele seria muito mais útil como comida de urubu, condenando à morte todos aqueles que desrespeitassem o seu desejo.


No entanto, Ravenguinha, inconformada com a sorte de seu irmão emogloblina, procurou sua medrosa irmã, Ismene, no intuito de pedir-lhe ajuda para enterrar o irmão. Naquela época, não havia castigo pior do que deixar um corpo sem sepultura, pois a alma do presunto ficaria vagando por aí, sem rumo, sem destino e sem sossego.

Sabendo disso, Ravenguinha fez de tudo para enterrar Polinice, mas Creonte foi enfático em sua proibição, afirmando que mataria a própria sobrinha, caso ela tentasse desobedecer suas ordens. E então, para garantir a papinha da urubuzada, Creonte deixou vários sentinelas cuidando do corpo.

Mas era verão, aquele calorão e o cheirinho de podre foi pouco a pouco tomando conta do lugar. Os sentinelas, já com os estômagos revirados, resolveram se afastar um pouco do defunto a fim de respirar melhor, e foi nesse momento que Ravenguinha descabelada, de soslaio, começou a enterrar o corpo do irmão.

Quando os sentinelas voltaram, descobriram que alguém havia ousado jogar um pouco de terra sobre o presunto. Apavorados, rumaram ao palácio para informar o ocorrido a Creonte, que não gostou nada da notícia. Muito contrariado, o Rei mandou seus homens ficarem à espreita, para então pegarem o infrator em flagrante.

E foi assim mesmo que a coisa toda aconteceu. Ravenguinha, com seus cabelos de Ravengar ao vento, voltou e tentou jogar mais terra sobre o irmão. Ela sabia que precisaria de umas cinco caçambas de terra para terminar o serviço, mas era o seu dever... Ela estava lá, pá por pá tentando cobrir o enorme Polinice até que foi surpreendida pelos sentinelas, que satisfeitos a levaram pelos cabelos até Creonte.

Aí começou o confronto entre tio e sobrinha, um alegando a soberania de suas ordens e outro afirmando que as leis "não escritas", que as leis "sagradas" prevalecem sobre qualquer capricho de um rei vingativo. 

Foi um bate-boca daqueles... No fim, Creonte, já cansado da discussão, acabou condenando Ravenguinha à morte, tanto pela audácia quanto pela feiura. Uma de suas explicações para o decreto de morte de sua sobrinha foi a de que seu filho Hêmon, até então noivo de Ravenguinha, deveria encontrar uma mulher mais bonita e menos desbocada.

Hêmon, desesperado, implorou para o pai não matar seu grande amor. Ela podia ser feia, a cópia do Ravengar, mas para ele, ela era um pitelzinho... Apesar dos apelos do filho, Creonte, cego pela fúria, foi irredutível, confirmando a iminente morte de Antígona.

Ismene, a medrosa irmã de Ravenguinha, arrependida de não tê-la ajudado, pediu ao tio para compartilhar sua sorte, sendo as duas, mesmo contra os protestos de Antígona, levadas para a prisão.

A cidade ficou em polvorosa, todos preocupados com os últimos acontecimentos, e foi por isso que o cegueta Tirésias Mercado (Ligue Jiá), vidente charlatão (aquele mesmo que havia adivinhado que o Diponga iria matar o próprio pai e casar com a própria mãe), resolveu falar com o vingativo Creonte. Ele disse com seu portunhol enferrujado:

"Crionti, mi hijo, no puedes hacer eso, mi pressárrios dicem que debes libertar Rabengota e interrar Emoglobinus, o entonces desgracia similhante te ocurrirás. E ligue djá".

Creonte ficou possesso, a verdadeira looouuuca de bolsa, e expulsou Tirésias aos gritos do palácio: "Sai daquiiiiiii seu cegueta charlatão. Vai cantar em outra freguesia seu bobalhão!!!!!".

Tirésias Mercado quase deu de cara com a parede, pois era cego e não sabia muito bem o caminho da saída, mas por sorte conseguiu encontrar a porta do palácio antes de levar uns pontapés no traseiro, deixando para trás um Creonte irritado e temeroso.

Depois disso, o Rei de Tebas não conseguiu pensar em outra coisa: "Matar ou liberar Ravenginha, eis a questão!

Ele pensou, pensou, pensou... pensou mais um pouco e tomou uma decisão: ouvir as profecias do charlatão "Ligue jiá" e libertar sua entrépida e feiosa sobrinha.

Porém, quando ele tomou essa decisão já era tarde, Inês já era morta, ou melhor, Ravenguinha já era morta... Ela se enforcou na cela, e com ela, seu filho Hêmom, que depois de cuspir no rosto do pai, também se matou...

A desgraça chegou aos ouvidos de Eurídice, mulher de Creonte e mãe de Hêmom, que, desolada, suicidou-se de desgosto. Foi uma verdadeira carnificína...

Todos seus entes queridos haviam morrido, Creonte estava sozinho no trono por ser irredutível em suas decisões, afrontar os deuses e não dar ouvido à razão.

Ravenguinha, nossa intrépida heroína, mulher forte e decidida, ousou desafiar um homem, situação ímpensável naquela época. Morreu descabelada, acreditando ser vítima de um dever sagrado, o de prestar a última homenagem ao corpo de seu problemático irmão emoglobina, que morreu por sua ganância, mas nem por isso merecia vagar eternamente sem descanso, puxando o pé dos vivos por noites sem fim.

Todos se foram por um motivo, uns mais nobres do que os outros, mas não menos importante. Somente sobrou Creonte, que depois de tanta morte, entendeu seu erro, pena que tarde demais... Infelizmente, ele, depois de seu ataque de remorço (e de hemorróida), teve que aprender a ser justo do modo mais difícil...


Essa foi uma paródia bem humorada da obra Antígona de Sófocles - Mitologia Grega. 

domingo, 7 de novembro de 2010

A intrépida Ravenguinha - parte #1

Era uma vez, uma destemida e amorosa garotinha de cabelos parecidos com o do Ravengar chamada Antígona. Ela era filha de Édipo, assassino incestuoso, e de sua própria avó, Jocasta, a fogosa rainha de Tebas.

Nascida numa família, no mínimo, conturbada, Antígona tinha tudo para ser uma jovem tresloucada, mas não, ela seguia contente e serelepe ao lado de seus três irmãos, Etéocles, Ismênia e Polinice.

É bem verdade que os irmãos às vezes se estapeavam, mas nada fora do normal, uma briguinha aqui pela barbie sem cabeça, outra ali pelo incêndio na casinha de bonecas, outra acolá pelo arremesso das rodas do caminhãozinho de brinquedo pela janela, algumas garfadas por causa de assaltos de batatas-fritas, mas nada sério, somente briguinhas fraternais.

Na adolescência, ela gostava de ouvir Luiz Caldas, Amado Batista, Beto Barbosa e Kaoma, usava mini-saia rodada laranja e centenas de pulseiras barulhentas nos pulsos. Quando ela andava, fazia um barulho parecido com o de uma vaquinha leiteira, tirilililó, tirilililó, tirilililó... Seu apelido era Ravenguinha.

O pai dela, Édipo (Diponga para os íntimos), após conseguir derrotar a monstruosa esfinge que assombrava a cidade de Tebas matando os forasteiros que não conseguiam responder aos seus ridículos enigmas, tornou-se Rei da cidade e ganhou de lambuja a mão da fogosa Jocasta, que, por acaso, era sua mãe. Muitos anos se passaram sem que ele soubesse que sua esposa era na verdade sua adorada mãezinha.

Ele não sabia de sua origem, pois foi abandonado quando criança. Tudo aconteceu pois quando ele nasceu, a família Labdácias foi assolada por uma terrível maldição: o bambino nascido deste casório mataria o próprio pai e desposaria a própria mãe.

Quem deu essa notícia ao serelepe casal foi o cegueta Tirésias Mercado (Ligue jiá), um vidente meio charlatão, mas que acertava vez ou outra.

Sabendo da desgraça anunciada, e não querendo correr o risco, Laio e Jocasta (guardem esses nomes) trataram de abandonar o pequeno Diponga bem longe, num lugar chamado Monte Citerão.

Pois bem, muitos anos se passaram, Diponga derrotou a esfinge, ganhou a mão de Jocásia, e tudo corria feliz. Ocorre que, enquanto esta parte de seu passado continuava oculta, o agora Rei Édipo (Diponga para os íntimos), praticava peripécias nupciais com sua assanhada Jocasta... os rebentos foram nascendo, chorando, crescendo... as coisas foram mudando, os antigos discos de vinil foram trocados por pequenos e brilhosos cds, vieram os cabelos brancos, aquela coisarada toda.

A vida ia muito bem até o dia em que a cidade foi assolada pela peste. Os súditos do reino estavam empestiados ao som de Raul Seixas, "Tá todo mundo louco, oba! Tá todo mundo, oba! Tube ri din din, din diiiiinnnn", era um horror, o verdadeiro caos!

O pai de Ravenguinha, homem que acreditava em espiritismo e ciências ocultas, pediu para seu cunhado, o sisudo Creonte, consultar o oráculo da cidade. Na volta, Creonte informou-lhe que para acabar com aquela "pestarama" toda, seria necessário encontrar e banir da cidade o assassino do antigo rei de Tebas, o bêbado Laio, que por ironia do destino (e bota ironia nisso), era o verdadeiro pai de Diponga, e que, mais ironicamente ainda (porque desgraça pouca é bobagem...), havia sido assassinado pelo próprio Diponga à bengaladas dias antes dele derrotar a esfinge enigmática de Tebas.

O problema todo era que o violento Diponga não sabia que aquele cara que ele havia matado por causa de uma cretina discussão futebolística acerca dos dons divinos do cacheado Valderrama no bar do Zé Bedeu era, na verdade, seu pai, o caçhaceiro Laio, antigo Rei de Tebas, que lá no começo da história o havia abandonado, junto com Jocásia, por causa daquela maldição de que o filho deles mataria o próprio pai e desposaria a própria mãe.

Então, para descobrir a identidade do assassino, Diponga mandou chamar o cegueta charlatão, Tirésias Mercado (Ligue jiá), que contou toda a verdade, revelando que ele tinha assassinado seu pai e que tirava casquinhas de sua mãe... (dessa vez ele acertou de novo). A Corte ficou alarmada e Diponga foi cozido em sua própria culpa.

No meio de todo esse escândalo, Jocasta, a rainha-socialite que vivia em destaque na mídia e que adorava passear no Castelo de Karras, não pôde suportar a humilhação de ser amante de seu próprio filho e suicidou-se enforcada com o cadarço verde fluorescente do tênis estilo emo de seu filho.

Diponga, ao ver sua mãe-esposa enforcada, furou seus próprios olhos com os colchetes bijoux do vestido da rainha socialite. Foi um pandemônio!

Os dois herdeiros, Eteócles (encrenqueiro de carteirinha) e Polinice (emo, obeso mórbido, dono do cadarço), expulsaram o pai da cidade, que triste, abatido, humilhado e cego, partiu para o exílio na zona leste de Atenas, guiado pela sósia do Ravengar, sua amada filha.

Ravenguinha acompanhou seu pai até seus últimos dias, quando, levado pela dengue, foi enterrado num caixão de papelão no cemitério do Araxá. Muito abatida e totalmente esquecida da existência de chapinhas e cremes domadores de cachos, Antígona voltou para Tebas e encontrou seus irmãos se estapeando pelo trono.

Não percam as cenas dos próximos capítulos...




terça-feira, 2 de novembro de 2010

Fausto - Tragédia em duas partes...

Johann Wolfgang von Goethe foi um dos mais brilhantes escritores alemães da história. Sua grande obra foi Fausto, escrita entre 1797 e 1831. Seu poema é baseado na lenda alemã protagonizada pelo médico, mago, astrólogo, alquimista e cientista Dr. Johannes Georg Faust, que, segundo contam, viveu ali pelo final do séc. XV, início do séc. XVI. 

A lendária figura do Dr. Fausto também faz parte de inúmeras obras literárias, entre elas A Vida de Fausto, de Maler Müller (1778), Vida, Feitos e Danação de Fausto, de F.M.Klinger (1791) e a peça Dr. Faust, de Christopher Marlowe (1589), 

A famosa obra de Goethe, por sua vez, retrata um homem desiludido e cansado da mediocridade de seu tempo, numa eterna busca pelo absoluto. Em meio ao seu descontentamento, Fausto resolve fazer um pacto com o demônio Mefistófeles, que antes de tentá-lo, já havia feito, no céu, uma aposta com Deus, que concedeu-lhe carta-branca para corromper o insatisfeito Fausto.

No pacto, feito por um contrato assinado com seu próprio sangue, Fausto negocia viver vinte e quatro anos da sua vida, o que lhe daria a oportunidade de superar os conhecimentos de seu tempo, em troca de, claro, sua alma (clichê, né? O diabo sempre quer a mesma coisa, o que será que ele faz com tanta alma, vende na farmácia?).

Pois bem, milhares de descobertas, aventuras e emoções são brilhantemente descritas nesta obra, que  passando pelo céu, pela terra e pela história européia, termina com o encontro de Fausto com o amor e sua luta para enganar o danado do diabo.

É aqui que a bebedeira teve início
Dentre as envolventes passagens da obra de Goethe, há um trecho em especial que pude vivenciar de forma mais vívida, com texturas, odores, sabores e um pouquinho de álcool, pois ninguém é de ferro e já aproveitei e entrei no clima... foi a passagem da bebedeira na Auerbachs Keller, em Leipzig/Alemanha:
"Taberna do Retiro d’Auerbach, em Leipsick. Porta, ao fundo, para a rua, entre duas janelas de peitos. Ao meio da casa, mesa grande, com pratos, talheres, garrafas e copos de estanho e vidro, tudo em confusão, e sem toalha. À roda da mesa, bancos. À esquerda o balcão, e mais uma armação de taberna. Por trás do balcão, uma cesta de ferramenta. Pendente do tecto, um grande lampião aceso"
Mefisto, Goethe e eu
Reza a lenda que o verdadeiro Dr. Fausto teria, dentro do Auerbachs Keller, rodado um enorme barril de vinho direcionando-o para a rua, feito que somente poderia ter sido realizado com a ajuda do diabo. Por conta desse fato, Goethe teria incluído em seu poema a homérica bebedeira no Auerbachs Keller.

Não sei se ele rodou o barril, mas posso garantir que o barril era grande mesmo e que o vinho de lá é mesmo espetacular, e olha que eu nem sou uma grande degustadora de vinhos...

Mas para aqueles que não gostam tanto de vinho, tem também a autêntica cerveja alemã, que segundo testemunhos legítimos, é uma delícia...

Mas mesmo com essa maravilhosa fama, decidi ficar só no vinho mesmo, pois sabem como é, né??? Misturar só dá ressaca...

domingo, 12 de setembro de 2010

Há 9 anos e 1 dia...

Hoje faz 9 anos e 1 dia que o mundo parou para ver o que acontecia lá em Nova Iorque. Em 11 de setembro de 2001, as torres gêmeas foram atacadas, destruindo um dos maiores e mais prósperos símbolos do orgulho norte-americano, que hoje só existe na história.

Essa semana muito alarde se fez, protestos aqui, missas ali, ameaças de queima do Alcorão acolá, mas nada de extraordinário aconteceu...

No entanto, ao pensar no passado, lembro exatamente o que estava fazendo no dia 11 de setembro de 2001...

Eu estava no escritório onde estagiava na época, lá perto da Bovespa, com mais dois estagiários, o Pedro e o Márcio. Nós três estávamos abobados na frente do computador vendo a tragédia pelo site do Terra. Ficamos lá parados, achando que tudo não passava de uma espécie de trote.

Não podia ser verdade, aviões sequestrados colidindo em prédios comerciais de Manhattan. Lembro que já tinha sido difícil acreditar na colisão do primeiro avião, quem dirá no segundo. Mas era verdade, e me lembro direitinho daquele dia, lembro do que falamos, do que vesti, de como parecia impossível que o povo mais paranóico do planeta houvesse sido alvo de um ataque terrorista daquele tamanho.

Lembro que os comentários na sala falavam sobre o início do declínio do império estadunidense, retaliações, terceira guerra mundial... palavras, palavras e mais palavras, e eu me lembro de cada uma delas... Incrível como certas coisas continuam nítidas em nossas mentes, mesmo após anos e anos no esquecimento...

Mas e você, por acaso se lembra o que estava fazendo em 11 de setembro de 2001???

.

domingo, 11 de julho de 2010

Queimando sutiãs...

Em 07 de setembro de 1968, em Atlantic City, EUA, ocorreu um fato que ajudou a mudar o rumo do mundo feminino, o chamado Bra-Burning, conhecido aqui como A Queima dos Sutiãs. A queima mesmo nunca aconteceu, mas o evento concebido por cerca de 400 ativistas do WLM (Women´s Liberation Movement), contra a realização do concurso de beleza Miss América, teve o poder de abalar as estruturas de todo o mundo ocidental.

A mulherada achava que a escolha da americana mais lindinha daquele ano era uma maneira dos homens oprimirem ainda mais as já oprimidas mulheres, explorando comercialmente as virtudes físicas de mulheres fúteis e descerebradas.

Essas feministas distribuíram do lado de fora do local onde acontecia o Miss América, inúmeros "instrumentos de tortura" feminina como sutiãs, sapatos de salto, cílios postiços, laquês, espartilhos, maquiagens, revistas, detergentes, cintas, entre outros utensílios da mesma natureza,  tudo mais ou menos pacificamente, até quando alguém sugeriu que a mulherada tirasse seus próprios sutiãs e colocasse fogo em tudo, o que, infelizmente, não ocorreu (ninguém discorda que seria muito mais emocionante, mas a lenda ficou mesmo assim).

Naquele dia não teve fogueira de São João, pois a Prefeitura não autorizou o incêndio, mas a mídia e a "rádio-peão" se encarregaram de florear o ocorrido, relacionando o movimento com outros da época, como o dos jovens que queimaram seus cartões da seguridade social contra a Guerra do Vietnã e a declaração da jornalista e escritora australiana Germaine Greer de que o sutiã era uma invenção ridícula, repetida posteriormente por centenas de mulheres que achavam que essa peça do vestuário feminino era uma arma anti-sexista da liberação feminina.

Depois disso, em outras partes do mundo, as feministas radicais começaram efetivamente a queimar sutiãs por aí, trazendo mais confusões do que soluções, mas o movimento que originou isso tudo foi muito mais civilizado do que reza a lenda.

Por outro lado, é bom lembrar que quando essa confusão aconteceu, os EUA andava meio conturbado em razão da invasão de suas tropas no Vietnã e o assassinato de Martin Luther King. As expressões da moda eram racismo, sexismo e militarismo. Quase todos os protestos daquela época estavam ligados a um desses temas, tidos como os inimigos da sociedade.

Na verdade, o WLM era uma espécie de sindicato das mulheres que não tinha por objetivo acabar com os homens, mas sim a igualdade de oportunidades para os seres do sexo frágil.

Pois bem, a queima de sutiãs em praça pública não aconteceu, mas a fama de incendiárias perdura até hoje, confirmando a máxima popular: Quem tem fama deita na cama!

segunda-feira, 25 de janeiro de 2010

E essa tal de Metafísica...

(Debaixo da chuva torrencial de São Paulo)

Metafísica é um ramo da Filosofia que estuda a essência do mundo, que busca os princípios e as causas fundamentais de tudo, tratando de questões que, em geral, não podem ser confirmadas pela experiência direta. Podemos até dizer que a Metafísica é o estudo da realidade. As perguntas que ela tenta responder são: o que é real?; o que é natural?; o que é sobrenatural?; o que é verdade? e afins. Willian James (psicólogo e filósofo norte-americano, 1842/1910), definiu a Metafísica como "apenas um esforço extraordinariamente obstinado para pensar com clareza". Mas aí, o que é pensar com clareza? Alguém sabe?

Pois é, difícil definir isso, mas segundo dizem os entendidos no assunto, a Metafísica não se interessa pelos "comos" da vida (como se faz isso, como se faz aquilo), e sim pelos "porquês" existenciais, pelas questões que podem facilmente jamais ser formuladas durante uma vida inteira. É diante desse conceito que os metafísicos entendem ser provavelmente válido afirmar que o fruto do pensamento metafísico não é o conhecimento, mas o entendimento.

Até aí tudo bem, mas qual é a origem da palavra "Metafísica"? Para descobrirmos sua origem, teremos que voltar há anos e anos antes de Cristo, alí entre 384 a.C. e 322 a.C, na época em que aquele rapaz, o Aristóteles, era vivo. Pois é, conta a lenda que a origem da palavra "Metafísica" é atribuída a Aristóteles e Andrônico de Rodes.

Veja só que interessante, na verdade Aristóteles nunca utilizou essa palavra, nunquinha, mas escreveu temas relacionados a physis (física)¹, e sobre temas relacionados à ética e à política, entre outros. Aí, Andrônico, como bom homem metódico que era, ao organizar os escritos de Aristóteles, o fez de maneira a distinguir os dois temas, fazendo com que os relacionados com physis viessem antes dos outros. Assim, esses outros assuntos vinham além da física (meta = depois, physis = física), atribuindo a Metafísica a algo intocável, que só existe no mundo das ideias, ou seja, tudo que transcende a física.
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¹ Segundo os filósofos pré-socráticos, é a matéria que é fundamento eterno de todas as coisas e confere unidade e permanência ao Universo, o qual, na sua aparência é múltiplo, mutável e transitório.

Pois bem, agora evoluindo ainda mais na história, vê-se que a Metafísica nunca foi uma ciência tranquila, isso porque Aristóteles examinou a natureza do ser em geral e não de suas formas particulares, postulando a ideia de deus como substância fundamental. Já Platão entendia que a Filosofia era a única ciência capaz de atingir o verdadeiro conhecimento, e que por meio da dialética o filósofo aproximava-se das ideias puras, como a verdade, a beleza, o bem e a justiça.

Então na Idade Média, a Metafísica confundiu-se com a teologia, e é nesse contexto que Tomás de Aquino afirmou que a Metafísica estudava a causa primeira, e, como a causa primeira era deus, deus era o objeto da Metafísica (silogismo puro e simples, que pode, ou não, partir de premissas verdadeiras).

Depois disso, na Idade Moderna, a experiência passa a ser extremamente valorizada e a Metafísica, com deus como objeto, deixa de ser considerada a base do conhecimento filosófico. A partir de então, David Hume disse que o homem estava completamente submetido aos sentidos, portanto, não poderia criar ideias, não sendo possível formular nenhuma teoria geral da realidade. Para ele, ciência alguma seria capaz de atingir a verdade, sendo seus conhecimentos sempre probabilidades, e apenas isso.

No século XVIII, Immanuel Kant afirmou que o domínio da razão e o rigor científico poderiam recriar a Metafísica como conjunto dos conhecimentos provenientes apenas da razão, sem utilizar dados da experiência. Nesse sentido, a Metafísica de Kant reduzia-se ao estudo das condições e limites do conhecimento, sem vinculação à ideia de deus como substância fundamental.

Já no século XIX, o positivismo de Augusto Comte colocou a Metafísica como uma ciência superada. Segundo ele, a história da humanidade (e, por analogia, o conhecimento humano), passou por três períodos: o teológico, o metafísico e o positivo, ou científico, sendo que este último seria considerado superior aos anteriores.

Aí no século XX, o filósofo Martin Heidegger fez uma revisão da história da Metafísica e sustentou que ela confundia o estudo do ser, o verdadeiro objeto da filosofia, com outros temas, como a ideia, a natureza, deus e a razão, motivo pelo qual tais equívocos deveriam ser superados.

Assim, vemos que a Metafísica em si, como entendida atualmente, nada tem a ver com religião, o que não impede sua influência nos preceitos religiosos. A exemplo disso podemos citar que caso a teoria metafísica do materialismo fosse verdadeira, sendo um fato que o homem não tem alma, então grande parte da religião sucumbiria, demonstrando assim a influência da Metafísica na religião.

Veja que embora a Metafísica seja sim o estudo da essência do mundo, não podemos dizer que ela explique os preceitos religiosos, que, na verdade, não possuem vinculação direta com os conhecimentos metafísicos, tais quais como hoje conhecidos. A religião pode até se utilizar confortavelmente de algumas "verdades" metafísicas, mas a recíproca não é verdadeira.

Assim, explicar que tal coisa é como é porque deus o quis assim, não explica nada, e jamais poderá ser classificado como um exercício metafísico, como alguns pretendem afirmar, sendo, quando muito, uma forma preguiçosa de explicar algo sem bases sólidas.

O que já nos leva a outros assuntos que agora estou com preguiça de escrever... mas enfim, o que eu queria mesmo era desvincular a metafísica da religião, que são coisas completamente distintas, mas que constantemente são confundidas pelos incautos do caminho... que têm todo o direito de discordar disso... que fique bem claro...

E por hoje é só...

PS. Algumas palavras foram grafadas com letras minúsculas de propósito.



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segunda-feira, 18 de janeiro de 2010

O pequeno boêmio Toulouse-Lautrec...

Henri Marie Raymond de Toulouse-Lautrec Monfa nasceu na cidade de Albi, no sul da França, em 24 de novembro de 1864. Seu pai era o Conde Alphonse de Toulouse-Lautrec Monfa, Conde Alf para os íntimos, e sua mãe Adéle Tapié de Céleyran. Nascido em berço de ouro, seus pais esperavam que ele desse continuidade à estirpe aristocrata da família.

Tudo poderia ter corrido como o esperado, não fosse uma doença desconhecida que acometeu o pobre Toulousinho, ocasionando o desenvolvimento insuficiente de alguns tecidos ósseos do garoto. Por causa disso, Toulouse-Lautrec sofreu dois acidentes em sua adolescência, com 12 e 14 anos, fraturando os dois lados do fêmur, lesões que fizeram com que suas pernas parassem de crescer e ele não ultrapassasse 1,52m. Durante o período em que ficou acamado, Toulouse fazia desenhos e pintava aquarelas para passar o tempo, atividade que abriu seus olhos para o mundo artístico.

Mas voltando à aristocracia francesa, parece que o problema mesmo não era o tamanho do Toulouse-Lautrec, e sim o formato de seu corpo: um homem adulto com perninhas de criança. Cansado da nobreza e entendendo haver algo errado com seu corpo, ele foi estudar pintura com um professor mal humorado e depois com um professor boêmio das ladeiras parisienses de Montmartre, descobrindo alí o motivo de sua existência.

Toulouse-Lautrec não quis mais saber do título nobre da família e decidiu se mudar definitivamente para Montmartre, bairro de péssima fama, para viver entre trabalhadores, prostitutas, escritores, filósofos e artistas de caráter pra lá de duvidoso, afinal, a noite todos os gatos são pardos...


Foi ali que Toulouse-Lautrec começou a florescer para a arte, pintando a vida boêmia da elegante Paris do final do século XIX. Ele era frequentador assíduo do famoso Moulin Rouge e outros cabarés, arrepiando os cabelos mais escondidos de seus pais, que o acusaram de chafurdar na degradação.

Sua relação com o Moulin Rouge era tão estreita, que ele até tinha um assento cativo no cabaré, podendo até mesmo expor seus quadros pós-impressionistas lá dentro.


Mas parece que Toulousinho além do gosto pela pintura, também era amarradão num goró, sendo-lhe atribuída, inclusive, a invenção de um coquetel chamado Terremoto (Tremblement de Terre), que é uma mistura de 1/2 parte de absinto e 1/2 parte de conhaque, servido em um copo de vinho sobre cubos de gelo ou batido com gelo em uma coqueteleira.

Testemunha da vida noturna de Montmartre, Toulouse-Lautrec além de pintar seus quadros, também dedicou-se à litografia, fazendo cartazes promocionais dos cabarés e teatros da região. Seu estilo era tão inovador para a época, que acabou revolucionando o design gráfico dos cartazes publicitários, ajudando a definir o estilo que posteriormente seria chamado de Art Nouveau.

Porém, de tanto se esbaldar na vida boêmia da cidade luz, Toulouse-Lautrec virou um alcóolatra descontrolado, fato que lhe rendeu uma internação numa clínica psiquiátrica em 1899. Mas como bom boêmio que era, Toulousinho, ao sair da clínica, dá um jeito de voltar às ladeiras de Montmartre para beber e se acabar em bordéis parisienses.


Seu descontrole é tanto que sua saúde não aguenta e, em 1901, Toulouse-Lautrec não consegue mais viver sozinho, momento em que triste, se despede de Paris e sofre ataques de paralisia que quase o impedem de pintar.

Depois de dar tanto trabalho aos seus pais aristocratas, Toulouse-Lautrec morre de sífilis e alcoolismo nos braços da mãe, no castelo de Malromé, perto de Bordeaux, na madrugada de 9 de setembro de 1901.

A figura envolvente de Toulouse-Lautrec não se perdeu no tempo, e foi isso que nós, Luiz e eu, descobrimos na nossa visita à cidade natal do Toulousinho, a esplêndida Albi, uma das cidades mais lindas que tive o prazer de conhecer.



Albi é uma cidadela medieval incrustada no sul da França, agraciada por uma natureza exuberante e por uma catedral gigantesca, que impressiona tanto por fora quanto por dentro. 



Taí um lugar que eu gostaria de voltar... a linda cidade de Albi é um tesouro escondido dentro da Europa, que vale a pena ser vista e revista...




Olha só o tamaninho do Luiz comparado ao tamanhão de uma das pilastras externas da gigantesca catedral de Albi... reparando bem na foto aí de cima, a pilastra onde o Luiz está é a segunda da foto, aquela que está meio escondida pela sombra de uma frondosa árvore...





O museu Toulouse-Lautrec fica logo atrás da catedral, contando com um acervo maravilhoso das obras desse talentoso boêmio. Eu sou aquela que está tirando a foto... e o Luiz, meu muso inspirador.. hahahahaha...





PS. A primeira figura é a reprodução da assinatura de Toulouse-Lautrec, sua marca registrada.


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quarta-feira, 18 de novembro de 2009

Religião e o "antissemitismo" evangélico...

Ultimamente, temos observado o crescimento exponencial dos seguidores de pastores, bispos e afins. São os chamados evangélicos, alguns mais escandalosos que outros, mas todos seguidores dos mesmos dogmas questionáveis.

Nos centros das grandes cidades é muito comum ver algumas pessoas com seus autofalantes ambulantes, ligados no volume máximo e com seus livrinhos debaixo do braço, berrando: "Irmãos, a briba fala, a briba diz..." Esse tipo de comportamento é até justificável pelo grau de instrução quase nulo dessas pessoas, além da situação quase desesperadora de muitas delas.

Porém, parece ser cada vez mais frequente a formação de grupos fechados de evangélicos em todas as áreas da sociedade. Como exemplo, podemos citar coisas aparentemente banais, mas que, com o passar do tempo, poderão ter consequências catastróficas, como a inocente pergunta que vira e mexe surge nas entrevistas de emprego:
Qual a sua religião?
Será que esse tipo de questionamento é relevante para demonstrar a capacidade profissional do entrevistado? Além disso, na esmagadora maioria das vezes, tal pergunta sempre é feita por um entrevistador evangélico. Não estamos isentando os católicos de culpa no cartório. Na verdade, eles só não perguntam esse tipo de coisa por já partirem da premissa de que o entrevistado é da mesma religião.

Agora, mudando de assunto, mas não de direção, vamos fazer um paralelo histórico.
Alemanha, décadas de 30/40 do século XX.
Para conseguir um bom emprego, você deveria ser filiado ao Partido Nazista. Para se casar com um exemplar da raça ariana, você deveria apresentar um atestado de pureza racial, emitido por um doutor, claro, 100% ariano.

Não apenas os judeus, mas os não-arianos e não-nazistas eram discriminados pessoal e profissionalmente, ficando relegados ao submundo e ao subemprego. Se você não fizesse parte da patotinha dos Brüder (irmãos), bau bau...

Pois bem, será que qualquer semelhança é mera coincidência??? Será que vamos chegar a esse ponto???

Não sabemos, o fato é que essa perguntinha, aparentemente inocente, esconde uma das mais temíveis formas de segregação existentes. Se a coisa continuar a evoluir assim, haverá um dia em que os "do mundo" (ou seja, os não-evangélicos), precisarão mentir para conseguir, entre outras coisas, uma vaga de emprego.

* Este post, publicado simultaneamente nos blogs Caneteando e O Sonho de uma Sombra, foi escrito a quatro mãos, a partir de uma ideia maluca da Pati.

P.S. O Don Jaime disse: ¡¡¡Yo no tengo nada a ver con eso!!!



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